As descobertas foram realizadas ao longo de 20 anos de pesquisas na Amazônia Central.
Por Redação Diário da Amazônia

Foto: Júlia de Freitas

Pesquisadores do Instituto Mamirauá já coletaram e identificaram 23 novas espécies de animais na região do Médio Solimões, Amazônia Central, e também realizaram registros inéditos de espécies conhecidas em outras regiões. A maior parte das descobertas foram entre os peixes da ordem Gymnotiformes, conhecidos como sarapós, com 16 novas espécies descritas. Entre os Cyprinodontiformes, pequenos peixes de água doce, foram três espécies, e na ordem dos Siluriformes, conhecidos como ‘peixes-gatos’ ou bagres, uma espécie.

O peixe ciclídeo anão, de nome científico Apistogrammoides pucallpaensis, teve confirmada sua ampliação de distribuição geográfica. Com ocorrência restrita à Colômbia e ao Peru, a espécie ornamental foi encontrada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, descoberta que resultou no primeiro registro da espécie no Brasil. Além disso, os dados obtidos permitiram novos estudos sobre a fecundidade do peixe, publicados de forma inédita por pesquisadores do Instituto Mamirauá, organização social fomentada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.

No grupo dos primatas, foi descoberta uma nova espécie do gênero Leontocebus: um pequeno macaco com peso que varia entre 290 a 480 gramas e pertencente à família dos Saguis ou dos Soins. A espécie está em fase de descrição e um artigo científico deve apresentar a nova descoberta. Os pesquisadores também realizaram registros de três espécies de morcegos no estado do Amazonas: o morcego Vampyrodes caraccioli, o morcego-vampiro-de-perna-peluda (Diphylla ecaudata), conhecido por se alimentar quase exclusivamente de sangue de aves, e o morcego Cynomops planirostris, esta última descoberta destacada pelos pesquisadores pela espécie ter poucos registros no bioma amazônico.

Outro destaque de mamífero com novo registro no estado foi o cachorro-do-mato-de-orelhas-curtas (Atelocynus microtis), animal considerado raro. De difícil observação, a espécie carece de dados científicos coletados. Estudos sobre outros grupos de animais também estão sendo realizados com dados disponibilizados pelas coleções biológicas do Instituto Mamirauá e de outras instituições de pesquisa. Uma nova espécie de sapo do gênero Boana e uma de ave do gênero Willisornis estão sendo estudadas para seguir com o processo de descrição em trabalhos conduzidos por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e do Museu Paraense Emilio Goeldi, respectivamente.

As descobertas foram realizadas com as informações compiladas após uma série de expedições de campo realizadas ao longo de 20 anos de pesquisas do Instituto Mamirauá principalmente na região do Médio Solimões. As viagens para coletas são geralmente realizadas em áreas pouco conhecidas do ponto de vista científico e com potencial de novas descobertas sobre a biodiversidade amazônica. “Escolhemos as áreas com base em alguns critérios como áreas onde nunca foram realizadas expedições ou que apresentam deficiência de dados, uma paisagem diferente, regiões onde um rio separa fisionomias vegetais diferentes, entre outros. Estas expedições são feitas de barco e duram semanas, por este período o barco vira nosso laboratório, com a participação de dezenas de pesquisadores especialistas em diversos grupos”, afirma Ivan Junqueira, pesquisador do Instituto Mamirauá e do Programa de Capacitação Institucional do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Coleções biológicas

Além de servir como ‘memorial’ da biodiversidade, a coleção científica é um testemunho do histórico de modificações do habitat e das relações entre espécies. “É possível refinarmos a taxonomia para não tratar coisas diferentes como a mesma”, diz Ivan. Taxonomia é a disciplina que visa descrever, identificar e classificar organismos biológicos. “Nos últimos anos, a maioria das espécies novas de mamíferos descritas foram descobertas revisitando espécimes depositados em coleções científicas. Esses testemunhos da biodiversidade que estão depositados nas coleções, mesmo que coletados há centenas de anos, permitem aplicar metodologias atuais que não existiam à sua época de coleta, possibilitando o refinamento dos dados e revisões do seu status taxonômico, por vezes resultando na descrição de uma nova espécie”, explica o pesquisador. “Os resultados mostram que ainda há muito para conhecer da Amazônia. Mesmo com muitos pontos de coleta na Amazônia, quando observados os mapas destes registros, percebemos que estes estão concentrados nas margens dos grandes rios. Dessa forma, extensas áreas têm ausência total de dados amostrais”, complementa Ivan Junqueira.