O sumiço do cheque de R$ 1 milhão durante a operação Royal Flush, desencadeada pelo Ministério Público de Roraima (MPRR) na casa do presidente da Assembleia Legislativa, Jalser Renier (SD), segue sem esclarecimentos após 40 dias de ação. Em 8 de janeiro, o MPRR afirmou que houve obstrução de Justiça e considerou o sumiço como um “ato criminoso”.

A operação foi no dia 2 de janeiro e mirou ainda a mulher de Jalser, Cinthya Gadelha, e outras cinco pessoas ligadas a ele. As investigações apuravam crimes crimes de fraudes em licitação, contratos, lavagem de dinheiro, organização criminosa e obstrução de Justiça.

Outro cheque no valor de R$ 70 mil e uma quantia em dinheiro também sumiram. As duas ordens de pagamentos estavam no mesmo pacote separado pelo MP. No dia da operação, em 2 de janeiro, foram apreendidos carros de luxo e até joias na casa de Renier, em Boa Vista.

À época, o Ministério Público esclareceu que não sabia como e nem quando o pacote contendo os cheques e o dinheiro tinham desaparecido.

O MP, no entanto, afirmou ter adotado medidas legais cabíveis “para buscar a elucidação do crime de obstrução de Justiça”, conforme afirmou poucos dias depois da operação, ainda em janeiro.

A instituição jurídica chegou a pedir da Justiça novas buscas na casa dos investigados para tentar localizar o cheque, mas a solicitação foi indeferida pelo juiz Luiz Fernando Mallet no dia 14 de janeiro.

Na decisão negativa, o magistrado considerou a ação do MP comprometida e citou vazamento de informações acerca da operação. No dia seguinte à Royal Flush a defesa de Jalser Renier divulgou uma nota em que classificava a ação como “midiática” e denunciava suposto excesso cometido por policiais que cumpriam as ordens judiciais.

“Ao que parece, realmente houve vazamento de informações, o que pode ter prejudicado sobremaneira o êxito dos trabalhos. Fato a se apurar. Ações de tal magnitude, que invadem a privacidade das pessoas, devem ser tratadas com todo o cuidado, sigilo e segurança, sob pena jogar-se por terra todo um trabalho”, diz um trecho da decisão de Mallet.

Ele mencionou também o sumiço das gravações de câmeras de segurança de dias anteriores à operação e a ida de servidores e policiais militares lotados na ALE-RR à casa de Jalser no dia do cumprimento dos mandados.

“Não só isso, o nome e a credibilidade das instituições envolvidas está em jogo diante da opinião pública. Não causa estranheza a ausência do DVR e, de outros elementos de prova, na casa do investigado Jalser. Tal fato é consequência lógica e esperada de uma operação viciada pelo vazamento de informações. Quanto à presença de um coronel da Polícia Militar e de outros funcionários da Assembleia no local das buscas, tal não ocorreria se o zelo e atenção pautasse os trabalhos”, avaliou o magistrado quando indeferiu o pedido de novas buscas.

Ainda de acordo com o magistrado, o lamentável incidente do desaparecimento de certa quantia em dinheiro e cheques foi creditado “à falta de atenção necessária no desenrolar do importante trabalho”. “Cumpre destacar que, ao contrário do determinado em decisão de minha lavra, não se fez presente aos atos executórios um(a) delegado(a) de Polícia”,pontuou.

Quanto à suposta ocultação do celular de Jalser, o juiz observou como consequência natural de falta de cuidado na execução das tarefas, pois poderia se prever tal fato.

“Com relação à identificação cadastral das ligações feitas e recebidas pelos investigados Cinthya e Jalser, penso que, na atual conjuntura, é medida que nada acrescentará à investigação. Melhor teria sido um requerimento antecipado de escuta telefônica”, sugere.

G1 procurou o MPRR para saber se houve desdobramentos em relação ao caso e sobre as declarações do juiz Luiz Fernando Mallet e aguarda retorno.

Em nota, o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), que orienta e fiscaliza os MPs de todos os estados, informou que não tem procedimentos relacionados à operação e que só “se manifesta quando em processo em trâmite na instituição, ou seja, quando há a análise de caso concreto”.

Conforme o MP, a operação Royal Flush está à Cartas Marcadas, outra ação que levou à condenação de 10 pessoas, incluindo ex-servidores da Ale-RR, por desvios em licitações.

No decorrer das investigações foram coletados indícios de pagamentos irregulares a Jalser Renier.

“A partir de então foram realizadas diligências complementares, bem como postuladas medidas cautelares da quebra de sigilo bancário e fiscal pelo MP, que apontaram movimentações financeiras atípicas por parte do deputado estadual e demais investigados”, disse à época o MP.

Em outubro de 2016, Jalser Renier foi preso por envolvimento no caso que ficou conhecido como “Escândalo dos Gafanhotos”. Uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) anulou a condenação e, em fevereiro de 2017, o parlamentar foi solto.

Fonte: G1