Há três meses, a família de Maria Luiza Pantoja, de 63 anos, conta viver dias de desespero. Ela faz quimioterapia para tratar um câncer no estômago na Unidade de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon) do Hospital de Clínicas Dr. Alberto Lima (Hcal), mas o tratamento foi interrompido por falta de medicamentos.

A Unacon é o único local público que realiza quimioterapia no Amapá. A idosa ainda chegou a fazer duas sessões do tratamento, mas ao final da segunda, no dia 25 de fevereiro, recebeu a notícia desanimadora.

“Na segunda sessão de quimioterapia que ela fez, o enfermeiro comunicou a gente que não poderia ser feita a terceira porque não havia medicação e não tinha previsão para chegar”, relata a filha da paciente, a professora Marcicleide Pantoja, de 37 anos.

A mãe dela necessita dos remédios Docetaxel e Fluoruracila para as sessões quinzenais de quimioterapia.

A Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) confirmou a falta de pelo menos seis medicações: Docetaxel, Fluoruracila, Dacarbozina, Hidroxiuréia, Xeloda e Zoladex. Todos são usados no tratamento oncológico.

Em nota, a Sesa informou que a reposição está prevista para 20 dias úteis, e que pacientes que não dependem das substâncias em falta estão realizando normalmente a quimioterapia. Já o antibiótico Colistina aguarda entrega por parte do fornecedor.

A notícia só aumenta a angústia da família de Marcicleide e de outros pacientes. Maria Luiza precisa fazer mais duas sessões de quimioterapia antes de ser operada. A cirurgia está marcada para 8 de abril.

“A gente já não está acreditando mais que a cirurgia vai acontecer, por conta dessa falta de medicamento. Me sinto muito frustrada com tudo isso, em ver como o povo é tratado”, desabafou Marcicleide.

Até quem já passou pela pior parte do tratamento mas ainda precisa tomar remédios para conter a doença diz se sentir vulnerável. Josiane Teixeira, de 34 anos, que há dois anos e meio enfrentou um câncer de mama, se emociona ao imaginar ter que passar por tudo novamente.

“Quando eu vim tomar a minha injeção em janeiro, eu fiquei desesperada porque não tinha. A gente logo pensa que vai adoecer de novo e regredir todo o tratamento que fizemos. Só quem já passou sabe o quanto é difícil o câncer”, conta a ex-empregada doméstica. Atualmente, Josiane precisa do remédio Zoladex, também em falta.

Assistente de caixa, Léa Learte, de 42 anos, também precisa do Zoladex, medicamento injetável que serve para controlar o câncer de mama. Ela foi diagnosticada há dois anos com a doença e fala do medo da morte que a falta do remédio representa.

“A morte. É nisso que essa falta dos remédios pode resultar para nós pacientes. É nossa vida que está em jogo e ninguém parece se preocupar com isso”, reclamou.

Além da escassez de medicamentos, a paciente relata outros problemas na unidade, como a falta de materiais básicos.

“Não tem remédio, não tem agulha, não tem papel higiênico, não tem copo descartável. A gente tem que tirar R$ 120 do nosso bolso para comprar a agulha. A Unacon está jogada às traças”, disse Léa.

Fonte: G1