Barco faz transporte social das comunidades do baixo madeira

MONTEZUMA CRUZ (*)
Homens retiram do porão o armário de cozinha, carregam nas costas botijões de gás, sacos de farinha, laranjas, mandioca e cachos de banana. Uma mulher segura nas mãos um saco de pimentas doce e de cheiro. Jovens e idosos sentados em cadeiras plásticas observam o movimento.

Às 7h20 da manhã desta quarta-feira (7) chuvosa, eles retiravam do interior do barco Deus é Amor o restante das cargas procedentes de Rio Preto, no Baixo Madeira, depois de 12 horas de viagem. Ao todo, mais de 1,5 tonelada de produtos e mudanças.

Ancorado no porto Cai N’Água, pouco antes das 5h30 o barco já movimentava compradores. É assim a sua rotina, a cada viagem ao Baixo Madeira, onde a agricultura familiar do interior de Porto Velho aparece no mapa da produção acompanhada pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário.

Segundo a fiscal Ana Paula da Silva, a tripulação “quase não dorme”, pois antes do amanhecer no porto Cai N’Água, motoristas de caminhonetes encostam os veículos na beira do Rio Madeira, à espera de cargas diversas.

Em sua quarta viagem à região, Ana Paula, funcionária da Secretaria Estadual da Assistência e do Desenvolvimento Social, conferiu passagens e o desembarque dos passageiros e de mercadorias.

“Desta vez vieram 84 passageiros, mas as viagens ao rio Machado sempre trazem mais pessoas e cargas, e assim deve acontecer no próximo dia 19”, ela comentou.
A temporada de colheita do açaí em Rio Preto começa neste fim de ano e as cargas virão nas primeiras viagens do barco em janeiro e fevereiro de 2017.
Segundo Ana Paula, a maior parte deles vem para a cidade não apenas para vender grãos, frutas e farinha, mas visitam parentes, retiram benefícios previdenciários, fazem exames e tratamento médico.

CAFÉ PARA TORREFAÇÃO
A Gleba Rio Preto reúne ecossistemas de fauna e flora preservados por comunidades formadas por migrantes nordestinos atraídos para a Amazônia entre a segunda metade do século 19 e as primeiras décadas do século 20 para trabalhar na extração do látex das seringueiras.
Mas atraiu também o gaúcho Marciano Alves de Freitas, 61 anos, nove filhos, gaúcho de Iraí, que inteirou 28 anos no lugar e viaja uma vez por mês para Porto Velho, para receber no banco o valor da aposentadoria.

Hoje ele desembarcou com mais de 20 sacos de farinha d’água. “Essa carga toda já está vendida”, contou feliz.
Parte do Rio Preto pertence ao município de Machadinho do Oeste. Para os técnicos da Secretaria Estadual do Desenvolvimento Ambiental, a região é estratégica para a conservação por sua alta relevância ecológica, entretanto, está sujeita ao desmatamento.
Segundo Marciano, o solo fértil da gleba também foi aproveitado para a cafeicultura. Em dois alqueires, ele plantou café conilon e consegue vendê-lo diretamente ao Café Mirim, no Bairro Tucumanzal, em Porto Velho.

“Todo mês eu venho buscar o meu benefício da Previdência”, disse Joaquina Ana Souza, 67, mãe de 12 filhos, com 42 netos e bisnetos.
José da Silva, 54, paulista de Rancharia, há 22 anos na gleba, viajou com a esposa Luzia do Espírito Santo, 49, paranaense de Toledo. Permanecerão em Porto Velho até sexta-feira (8). O casal tem oito filhos, todos moram na gleba.

Ele elogia o barco: “Esse serviço do governo é muito bom para nós, facilita, faz sobrar um pouco de dinheiro; a viagem de volta a gente faz no barco particular, e além de pagar passagem a R$ 50, eles cobram até galão de combustível e o rancho [cesta básica]”.

E desafia: “Ali dá de tudo, se quiserem eu planto algodão” – lembrando que se dedicava a essa lavoura quando menino no interior paulista.
Dona Luzia disse que as maiores carências na região onde vive ainda são energia elétrica e escola. “Todos os alunos da quarta série vão pra Calama”.


(*) Publicada originalmente no Portal do Governo de Rondônia.