Militares renovam efetivo para acolhimento a imigrantes venezuelanos em Roraima

Parte do quarto contingente de militares das Forças Armadas se apresentou nesta segunda-feira (28) em Boa Vista. São 300 novos oficiais, entre Aeronáutica, Exército e Marinha, que devem atuar na capital e em Pacaraima, distante 215 Km, localizada ao Norte de Roraima, na fronteira com a Venezuela.

Todos os dias chegam até 800 imigrantes ao Brasil através da fronteira. O primeiro controle ocorre em Pacaraima, no Centro de Triagem administrado pela Operação Acolhida, onde os venezuelanos são orientados sobre documentação, recebem atendimentos médicos e até vacinação.

Segundo o major Eduardo Milanez, porta-voz da Operação Acolhida, além destes, outros 290 militares estão sendo aguardados. “Na terça-feira chegarão mais 180 [militares] e ao longo da semana outros 110 também vão chegar em Roraima”, explicou Milanez.

“A ideia é que eles mantenham a mesma prestação de serviços que as Forças Armadas vem prestando desde o primeiro contingente, em março, e que a sociedade de Roraima consiga perceber que a Força Tarefa e a Operação Acolhida continuam prestando o melhor serviço, recebendo os imigrantes, ordenando a fronteira, realizando o acolhimento e a interiorização”, declara o major.

Entre as novidades do contingente está a chegada de uma nova porta-voz, a coronel Carla Beatriz, que já atuou em outras missões importantes, como a de paz no Haiti.

“Eu ouvia falar da missão, mas é muito diferente você estar no local e ver realmente a grandiosidade do trabalho que está sendo feito aqui. Tudo o que está montado foi feito com muita dedicação, com o trabalho de pessoas que deixam suas famílias, deixam as suas casas em prol de um objetivo maior, um objetivo comum para o Brasil”, destaca.

Atuando em Roraima desde fevereiro de 2018, as Forças Armadas administram 13 abrigos para imigrantes, onze deles em Boa Vista e outros dois em Pacaraima. São mais de 5.700 pessoas acolhidas, segundo a Casa Civil.

Nos abrigos os venezuelanos contam com o apoio de ONGs, ações organizadas pela ONU, atenção básica de saúde, alimentação, além de receberem atividades culturais e educativas para crianças e adultos.

Desde 2016, quando houve a percepção do aumento da imigração, conforme as crises política, social e econômica aumentavam na Venezuela, toda essa movimentação trazia números alarmantes a Roraima, principal porta de entrada dos imigrantes no país.

Sem controle, a maioria dos estrangeiros se arriscava vindo a pé ao longo da BR-174, uma rodovia sem acostamentos que liga Pacaraima a Boa Vista, na chamada “Rota da Fome”.

Conforme chegavam na capital, eles se juntavam de forma improvisada em praças e em frente a abrigos em busca de uma vaga. Uma dessas praças era a Simón Bolívar, na zona Sul da cidade, que curiosamente leva o nome do herói da independência do país vizinho, onde chegaram a conviver até 1.200 pessoas, entre recém-nascidos e idosos.

O local chegou a ser cercado com tapumes pela prefeitura e, após oito meses, foi reaberta com cerca e horário de funcionamento.

A partir de abril o Governo Federal intensificou os processos de interiorização, levando imigrantes de Roraima a outros estados do país. Em nove meses, quase quatro mil pessoas aderiram voluntariamente ao programa. A maioria deles foi para o São Paulo, Rio Grande do Sul e Amazonas.

Impactos sociais em Roraima

Sem capacidade para comportar o aumento no fluxo de pessoas, que equivale a quase 10% da população do estado, conforme o IBGE, a saúde e a segurança de Roraima sentiram esse volume. A dificuldade encontrada por brasileiros gera reclamação e até conflitos.

Em agosto, um assalto praticado por venezuelanos contra um comerciante brasileiro culminou na expulsão de mais de mil imigrantes que viviam nas ruas do município. Na ocasião, centenas de brasileiros incendiaram pertences e destruíram barracas dos estrangeiros.

Na saúde, uma epidemia de sarampo preocupou as autoridades. Roraima possui atualmente 355 casos confirmados. A doença também se alastrou para o Amazonas, que teve quase nove mil notificações.

No mês de dezembro, a ex-governadora de Roraima, Suely Campos (PP) decretou situação de emergência social devido ao intenso fluxo migratório.

A crise econômica vivenciada pelo estado proporcionou uma situação atípica no país. No dia 10 de dezembro, Antonio Denarium (PSL), que venceu as eleições para governador, assumiu antecipadamente a gestão, sob decreto do ex-presidente Michel Temer (MDB), que afastou Suely Campos do poder.

Após assumir a presidência da República, Jair Bolsonaro (PSL) enviou cinco ministros para Roraima na primeira visita interministerial do novo governo. Vieram ao estado para conhecer as ações da Operação Acolhida Fernando Azevedo (Defesa), Luiz Henrique Mandetta (Saúde), Ricardo Vélez Rodríguez (Educação), Wagner Rosário (Controladoria-Geral da União) e Osmar Terra (Cidadania).

Na ocasião, o ministro da Saúde anunciou preocupação com um surto de difteria no país vizinho, além de outras doenças. Apesar do alerta, Mandetta assegurou que não faltam vacinas para imunizar brasileiros e venezuelanos no estado.

Instabilidade política

Além das crises, um conflito de poder envolvendo o presidente Nicolás Maduro e o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Juan Guaidó, que se auto proclamou presidente interino, divide o país em dois governos.

Destes, 14 países, entre eles o Brasil, apoiam Guaidó, enquanto outros oito consideram Maduro como presidente legítimo.

Anunciaram apoio a Juan Guaidó:

  • Brasil
  • Estados Unidos
  • Argentina
  • Canadá
  • Chile
  • Colômbia
  • Costa Rica
  • Equador
  • Guatemala
  • Honduras
  • Panamá
  • Paraguai
  • Peru
  • Reino Unido

Por outro lado, os países que consideram Maduro presidente são:

  • Rússia
  • Cuba
  • México
  • Bolívia
  • Nicarágua
  • Turquia
  • China
  • Irã

Durante os protestos, 20 pessoas morreram e mais de 350 pessoas foram presas na Venezuela nesta semana, informou nesta sexta o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH).

Fonte: G1