No Amapá, idosa ganha festa de aniversário ao completar 110 anos

Nascida no início do século 20, Vitória dos Anjos completou 110 anos na quinta-feira (3), em Macapá. A data foi celebrada com festa, bolo, salgadinhos, comidas e reuniu parte da família formada por filho, 19 netos, 30 bisnetos e 3 tataranetos. A celebração foi na própria casa da aniversariante, na Rua Turíbio Osvaldo Guimarães, no bairro Perpétuo Socorro. Tudo muito simples, mas cheio de amor.

Vitória nasceu em 3 de janeiro de 1909, na comunidade ribeirinha Siriúba, localizada no arquipélago do Bailique, distrito de Macapá. No registro de nascimento consta apenas o nome da mãe. A centenária não lembra quantos irmãos teve. Ela não sabe ler e escrever, mas sustentou toda a família com o trabalho na roça.

A longevidade na família, porém, não é regra. Dos oito filhos de Vitória, apenas um está vivo. Os demais adoeceram ao longo dos anos e morreram, deixando filhos e netos que a centenária ajudou a criar e educar. O marido também deixou a prole muito cedo, aos 40 anos.

Sobre o segredo para viver por tantos anos, a idosa atribui ao modo de vida e à alimentação saudável, retirada diretamente dos rios e das plantações.

“Eu gostava de trabalhar, de estar na roça. Comia peixe de manhã. Eu tomava o café e depois ia comer o meu peixe com açaí. Eu trabalhava na roça, plantava mandioca, banana, eu plantava tudo no meu terreno e vinha vender na cidade [Macapá] e vendia nas comunidades próximas. Com a roça, eu sustentei toda a minha família”, disse a agricultora aposentada.

O único filho vivo, Antônio dos Anjos, de 60 anos, conta que quase toda a família é de agricultores, assim como a matriarca. Ele complementa a fala da mãe, explicando a rotina dela.

“Minha mãe é acostumada a comer peixe que acabou de ser pescado, o açaí batido na hora, verduras, legumes e frutas tiradas da nossa roça. Nada parecido com essas comidas de hoje, cheias de mistura. Acho que isso é que faz ela viver tanto e ter qualidade de vida”, relatou.

Françuasa dos Anjos, 31 anos, é o chamego da centenária. É a bisneta que ela cuida desde os dois anos de idade e uma das poucas da família que conseguiu conquistar o curso superior.

Françuasa nasceu no Bailique, depois se mudou para outra comunidade onde havia escola, e hoje é professora de francês na Guiana Francesa. Foi ela quem organizou e realizou a festa para a “velhinha”, a quem chama de mãe.

“Digo que ela é a minha ‘bisamãe’. Ela dizia que ela era analfabeta, mas queria que eu tivesse estudo. Ela é minha vida. Cuido desde sempre dela e ela de mim, e só a deixei há dois anos, quando tive que ir para a Guiana. Aí o Antônio veio cuidar dela. Por isso quis aproveitar as minhas férias para organizar o aniversário da minha mãe e reunir o maior número de pessoas da família”, destacou Françuasa.

Antônio conta que não lembra da mãe doente. As limitações do corpo começaram com a idade avançada, por essa razão ela decidiu deixar o interior e vir para a capital, onde tem mais recursos para cuidar da saúde.

“Ela já enxerga muito pouco. Reconhece a gente mais pela voz e a casa pelo tato. Tudo na rotina dela é cedo, ela acorda às 6h, toma café, almoça às 10h, faz as merendas do dia. É o costume do interior, de comer cedo. As doenças dela, agora, são da idade. Nunca ela adoeceu com frequência. Não lembro disso. Eu acho que sou mais doente que ela e acho difícil chegar na idade dela. Minha mãe é uma guerreira”, disse.

E para enfrentar o sol na roça, o chapéu de palha era acessório indispensável para a dona Vitória. Essa, inclusive, é a imagem mais presente na memória da Françuasa, que encomendou bolo personalizado, com uma bonequinha da “bisamãe” no topo, dentro de uma canoa, principal transporte dos ribeirinhos da Amazônia.

“No interior, ela era conhecida pelo chapéu de carnaúba (palha), por isso eu mandei fazer o bolo com a boneca dela com chapéu, remando na canoa. Uma agricultora, pescadora, que amava o que fazia e que criou a todos nós com o suor da roça”, finalizou.

Fonte: G1