Parte da história do Acre é contada por objetos de mais de 100 anos que foram achados em uma propriedade rural no município de Porto Acre, a pouco mais de 20 quilômetros de Rio Branco, capital acreana. O acervo inclui garrafas, cerâmicas, armas de fogo, cápsulas de munição e peças que retratam o perfil de quem ocupava a região.

O museu foi montado pelo proprietário do local, João Antero, um amazonense que chegou ao Acre no final da década de 70. O idoso tem a ajuda do neto, o professor de psicologia Mychael Douglas. O neto ajuda o avô desde pequeno a organizar e até mesmo a procurar as peças.

A primeira peça encontrada por Antero foi uma garrafa de cerâmica, em 1983. “Eu encontei a peça já quebrada, achamos muitas garrafa, mas poucas inteiras. Essa estava no solo, mas achamos outras duas enterradas”, conta.

O neto lembra que o avô contou sobre as garrafas que encontrou e os dois decidiram investigar o material e descobriram que muitos objetos tinham mais de 100 anos. “A prova de que esse material é antigo é um objeto que eu tenho, é o fundo de uma garrafa que tem a data de 5 de janeiro de 1892”, afirma.

Detector de metais

A paixão por peças antigas é tão grande que neto e avô resolveram comprar um detector de metais. Com o aparelho, eles encontraram peças de ferro como o cano de uma espingarda de pouco mais de 100 anos, além de outros metais. Para que todo esse material não fosse perdido com o tempo, os dois resolveram construir a casinha de madeira que chamam de museu.

As ferramentas de metais como facão, machado, serrote, além dos rifles, foram encontrados destruídos e deixados em apenas um local. Para o agricultor, isso indica que a área se tratava de um armazém que sofreu um ataque.

“Eu suspeito que tenha sido um depósito, um barracão onde havia todo o tipo de mercadoria. Como uma central para servir os seringueiros que vinham de longe. Acredito que houve um conflito, não sei se na época da Revolução Acreana. Mas são todas coisas quebradas e antigas”, destaca.

Catalogação de objetos

Outros objetos também foram encontrados fora aqui da propriedade do agricultor como um pote de barro e uma colher de ferro. O neto explica que catalogou as peças através de pesquisas e também com a ajuda de idosos com quem conversa que deram a ele documentos sobre a chegada de nordestinos ao Acre durante a Segunda Guerra Mundial.

“Uma das imagens que tem no museu é de um navio de 1943 chamado ‘Comandante Ripper’ em que muitos vieram nele para o Acre desbravar a Amazônia pensando que iriam enriquecer, mas na verdade encontraram muito sofrimento e se tornaram sobreviventes. Prova disso é meu avô João, que também trabalhou no seringal e hoje é um sobrevivente entre nós”, destaca o professor.

Pelas características dos objetos encontrados e a fineza das garrafas importadas, é possível que as pessoas que ocuparam a região na época tivessem um grande poder aquisitivo.

“Como meu avô e outros seringueiros me contam, e também aprendemos nos livros de História do Acre, um seringueiro não teria condições de ter tantas garrafas de vinho importadas da Inglaterra, da França e Portugal”, acrescenta Douglas.

O agricultor afirma que o local é aberto para quem quiser ver as peças. Antero e Douglas destacam ainda que adoram receber visita e contar um pouco da história acreana a partir desses achados.

“A gente espera ter um local mais seguro para eles [visitantes] e pede também o apoio de historiadores e de pessoas que se interessem por esses objetos antigos para nos ajudar a pesquisar e identificar. Há objetos que realmente não conhecemos e, com essa ajuda, poderíamos saber mais novidades”, finaliza Douglas.

Fonte: G1