cena-iconica-de-rastros-de-odioO título é uma referência ao diretor John Ford (1895 – 1973), frequentemente citado por especialistas e historiadores de cinema, como o “Homero do Western”, pela sua capacidade de mergulhar na psicologia dos personagens atormentados de seus filmes, como Ethan Edwards vivido por John Wayne em “Rastros de Ódio” (The Searchers, 1956) clássico absoluto de Ford, responsável por transformar o gênero considerado classe B e que existia apenas para complementar as sessões dos filmes principais.

Então uma diligência levando sete passageiros, apareceu no caminho de John Ford. A partir de No tempo das diligências (1939) a história seria diferente, o western passaria a ser visto por um novo prisma, e assim o Velho Oeste nunca mais seria o mesmo, pelo menos na ótica deste que imortalizaria a paisagem do Monument Valley, cenários de inúmeros filmes seus, e tendo como heróis, atores como John Wayne, Henry Fonda e James Stewart, também imortalizados em filmes como o citado “No tempo das diligências” (Stagecoah, 1939), “Paixão dos Fortes” (My darling Clementine, 1946) e “O Homem que matou o facínora” (The man who shot Liberty Valance, 1962) entre tantos outros.

John Ford iniciou sua carreira em 1914 e até 1966, quando realizou seu último longa-metragem – “Sete mulheres” – dirigiu mais de cem filmes em toda sua carreira, ganhou quatro Oscar de Melhor diretor com os filmes “O Delator”, “As Vinhas da ira”, “Como Era verde o meu vale” e “Depois do vendaval”, curiosamente, nenhum western. Curioso por quê? Porque Ford se apresentava desta forma – “Meu nome é John Ford, eu faço westerns”.

Muitos são os westerns clássicos e imortalizados pelo público em sua preferência e considerados obras-primas, porém, nenhum deles alcançou à mística e a complexidade de “Rastros de Ódio” dirigido por John Ford em 1956 e estrelado por John Wayne, que faz aqui sua melhor caracterização ao encarnar o obsessivo e rancoroso Ethan Edwards, que passa cinco anos a procura de sua sobrinha, sequestrada por índios liderados pelo chefe Cicatriz.

O filme começa com o retorno de Ethan, veterano da guerra civil americana no lado dos sulistas e perdeu. Ao chegar reencontra seu irmão, a esposa Marta, a quem ama em segredo. O casal tem três filhos, um garoto e duas meninas – Lucy, a mais velha e Débora (Debie), a caçula. Outro personagem que irá cruzar seu destino mais uma vez é o mestiço Martin, que ele salvara ainda bebê quando seus pais foram massacrados por índios. Martin é interpretado por Jeffrey Hunter, mais conhecido pelo seu papel de Jesus no filme Rei dos Reis de Nicholas Ray.

Com pouco mais de vinte minutos de filme, o irmão, a esposa e o sobrinho de Ethan são dizimados num ataque de índios Comanches, que, no entanto, levam as garotas. Começa a partir desta tragédia, a peregrinação que leva Ethan e Martin a saírem em busca delas. A busca dura anos, mas Ethan tem apenas um pensamento – encontrar a sobrinha e matá-la, pois não a considera mais uma branca. A cena final, em que Ethan reencontra a sobrinha é antológica e o suspense perdura até o último momento deixando o espectador com o coração aos saltos pela expectativa se ele realmente cumprirá a promessa.

 

“Rastros de Ódio”, considerado por muitos críticos, a obra máxima de John Ford, e Ethan Edwards, o mais fascinante, completo, e complexo personagem criado pelo velho diretor irlandês que realizou aqui uma espécie de transposição da Odisseia, de Homero para o universo do velho oeste, e Ethan pode ser visto como referência a Ulisses. Ford e Wayne fizeram juntos 22 filmes.

O filme tem inúmeras sequências memoráveis, mas aquela em que aparece o vulto de Wayne emoldurado pela porta da casa da família, com o deserto ao fundo – imagem que abre e fecha o filme -, que mostra a impossibilidade de Ethan Edwards ter ali o seu lugar, são os enquadramentos mais expressivos e famosos da história do cinema.

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Por Humberto Oliveira