Cardiologistas explicam porque partidas emocionantes podem ser gatilhos para infarto e AVC. Após título do Flamengo na Libertadores, dois torcedores morreram por problemas cardíacos.
Por Patrícia Figueiredo, G1

Termina o primeiro tempo entre River e Flamengo — Foto: Jorge Soares ra doenças do coração, como infarto, AVC e arritmia. Neste final de semana, dois torcedores do Flamengo morreram em decorrência de problemas cardíacos após o time conquistar o título da Copa Libertadores da América no sábado (24). Mas, afinal, por que torcedores morrem do coração?

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As fortes emoções, como as causadas por uma partida de futebol, levam a uma grande descarga de adrenalina no corpo, segundo o médico José Francisco Kerr Saraiva, presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp). É essa adrenalina que aumenta a frequência cardíaca, a pressão arterial e a força de contração do músculo cardíaco e pode desencadear problemas do coração.

Além disso, o estresse pode provocar arritmias cardíacas e promover uma espécie de reação inflamatória no interior das artérias que favorece a formação de coágulos de sangue e de gordura pré-existente.

“Quando esse aumento de batimentos e de pressão acontece em um indivíduo saudável, o normal é que ele seja tolerável. No entanto, em idosos ou em pessoas com histórico de doença cardíacas, pode aumentar a incidência de infartos, inclusive fatais”, explica José Saraiva, cardiologista.
Rubro-negros cantam e comemoram chegada do Flamengo na final da Libertadores — Foto: Jorge Soares /Rubro-negros cantam e comemoram chegada do Flamengo na final da Libertadores — Foto: Jorge Soares / G1

As respostas do organismo ao estresse emocional dependem também da liberação de hormônios cerebrais. A concentração desses hormônios costuma variar de acordo com o grau de emoção experimentado pelo indivíduo, ou seja, aspectos como a importância do jogo, a rivalidade do adversário e o resultado da partida podem ter grande influência nos efeitos do estresse sobre o corpo.

Para Leopoldo Piegas, coordenador do Programa de Infarto Agudo do Miocárdio no hospital HCor, a alimentação rica em gordura e sódio e o consumo de bebida alcoólica, que costumam acompanhar partidas de futebol, também favorecem a ocorrência de problemas cardíacos.

Futebol aumenta infartos
Pesquisadores brasileiros analisaram o número de internações no Sistema Único de Saúde (SUS) em decorrência de doenças do coração e descobriram que os jogos da Copa do Mundo estão associados a um aumento de 4% a 8% na ocorrência de infarto entre brasileiros.

O estudo analisou as internações no SUS no período de maio a agosto de 1998 a 2010 e comparou a incidência de infarto e óbito entre os dias sem copa, dias de copa sem jogos do Brasil e dias de jogos do Brasil. A conclusão foi que a Copa do Mundo e, especialmente, os jogos da seleção brasileira, implicam maior incidência de infarto agudo do miocárdio na população.

Outro estudo, realizado na Copa do Mundo da Alemanha de 2006, revelou um aumento de 3,26 vezes no número de emergências por causas cardiovasculares nos homens e 1,82 vezes nas mulheres durante o período. Os dados mostram que o aumento foi ainda maior quando os jogos eram dos anfitriões ou quando definidos nos pênaltis. A análise foi feita com moradores de Munique, uma das cidades sede do evento de 2006.

“Ver uma partida de futebol estressante mais do que duplica o risco de um evento cardiovascular agudo. Em vista desse risco excessivo, principalmente em homens com doença cardíaca conhecida, são urgentes medidas preventivas”, conclui o estudo realizado na Alemanha.
No entanto, os médicos destacam que o estresse causado pelo esporte só costuma afetar pessoas que já têm problemas cardíacos prévios.

“O esporte e a emoção por si só causam infarto? Não. Normalmente as pessoas que vão a uma partida de futebol e sofrem um infarto depois de uma situação de estresse violento já têm a doença cardíaca antes”, afirma Leopoldo Piegas, cardiologista do Hcor.

Torcedores lamentam derrota do Brasil por 2×1 para a Bélgica e eliminação da Copa do Mundo no Vale do Anhangabaú, em São Paulo — Torcedores lamentam derrota do Brasil por 2x1 para a Bélgica e eliminação da Copa do Mundo no Vale do Anhangabaú, em São Paulo — Foto: Celso Tavares/G1
O aumento no risco de problemas cardiovasculares durante jogos de futebol é conhecido dos médicos e comprovado por meio de estudos científicos. Por isso, cardiologistas aconselham que os torcedores sigam algumas dicas para evitar que o futebol se torne uma fonte de sustos.

“A minha primeira recomendação é que a pessoa não se deixe levar pela emoção. Futebol é pra gente brincar, não pra gente morrer do coração”, afirma o cardiologista José Francisco Kerr Saraiva.
Para ele, torcedores fanáticos devem se preparar para assistir um jogo importante.

“Quando alguém quer começar a praticar um esporte, como corrida, por exemplo, é importante fazer uma avaliação cardiológica. A mesma coisa vale para quem é torcedor roxo e tem diabetes ou hipertensão: tem que fazer um check-up antes de viver uma situação de estresse”, defende Saraiva.

Leopoldo Piegas, do HCor, avalia que o ideal é evitar situações de estresse quando há propensão para problemas cardíacos.

“Você não recomenda a um flamenguista que já teve um infarto ir assistir uma partida do Flamengo contra o River Plate. Não é bom isso aí. A não ser que ele seja um torcedor muito frio, porque a emoção aflora”, afirma Piegas.

Outras dicas dos médicos para os torcedores são:

Evite beber álcool durante as partidas
Prefira petiscos saudáveis ao invés de alimentos com alto teor de gordura e sódio
Evite fumar
Pratique atividades físicas para preparar o coração para fortes emoções
Se tiver problemas cardíacos ou pressão alta, assista o jogo em ambientes tranquilos
Não se exponha ao sol durante o jogo
Os médicos destacam ainda alguns sintomas que surgem durante as partidas e devem servir de alerta para que os torcedores procurem acompanhamento médico:

Palpitação
Formigamento
Falta de ar
Dor no peito
Sensação de coração disparando
Suor excessivo
Náuseas
Tontura forte