Quem passa nesta terça-feira (7) por Pacaraima, cidade brasileira na fronteira com a Venezuela, se depara com uma realidade diferente da encontrada no local por mais de um ano. Dezenas de famílias indígenas que viviam em situação precária nas ruas foram levadas para o primeiro abrigo construído no município.

Na última quinta (3), os indígenas da etnia Warao foram realocados para um abrigo construído na cidade. Em apenas cinco dias de funcionamento o local atingiu 87% da lotação. Com capacidade para acomodar 200 pessoas, o espaço já abriga 174.

Este foi o terceiro abrigo inaugurado no estado, dois deles em Boa Vista. Juntos eles têm capacidade para receber 1.190 imigrantes venezuelanos entre índios e não-índios.

“Existe um aumento significativo de venezuelanos fora do seu país. Precisamos aumentar nossa capacidade de receber e dar suporte para essas pessoas”, afirmou o chefe de Operações Globais da Acnur, George Okoth Obbo.

Desde 2016, Roraima encara o desafio de receber o grande fluxo de venezuelanos que entram no Brasil pela fronteira seca. Eles fogem da fome, do desemprego e da falta de serviços de saúde no país governado por Nicolás Maduro.

Em 2015 foram registrados no estado 230 pedidos de refúgio por imigrantes venezuelanos. Um ano depois o número chegou a 2.230 solicitações. Em 2017, de janeiro a setembro, os pedidos de refúgio já alcançaram o montante de 12.193 somente em Roraima.

Adriana Lira, de 23 anos, é uma das venezuelanas que estão abrigadas no galpão transformado em moradia em Pacaraima. O espaço é o primeiro construído na cidade fronteiriça desde o início da migração em massa.

A jovem e os três filhos – um de sete anos, um de quatro e outro de dois – são da cidade de Tucupita, no estado de Delta Amacuro.

Ela, os filhos e outros parentes moravam nas ruas desde que chegaram a Pacaraima. “Estamos no Brasil há quatro meses. Viemos porque na Venezuela não tinha comida, remédios, não era seguro”, contou.

Em um dia chuvoso e frio na cidade como nesta terça (7), Adriana comemora. “Se estivéssemos na rua as crianças estariam na chuva. Aqui estamos melhor que na Venezuela. Nossos filhos estão se alimentando bem e podemos ir ao posto de saúde”.

O abrigo em Pacaraima foi construído pela prefeitura do município com auxílio de ONGs, da agência da ONU para Refugiados (Acnur) e do governo do estado.

Atualmente, o espaço conta com um redário, cinco barracas na área externa, banheiros e uma cozinha improvisada. Há também dois espaços para atendimentos de saúde.

“Estamos construindo uma cozinha, um refeitório e uma parte administrativa. Do lado de fora está sendo montada uma área com banheiro, lavatório de roupas e uma parte para instalar mais barracas”, explicou o prefeito de Pacaraima, Juliano Torquato.

Para organizar o local, mulheres e crianças ficam na parte interna onde fica o redário. Homens solteiros e rapazes estão abrigados em barracas.

Segundo Torquato, o novo abrigo só irá receber venezuelanos indígenas. “O crioulo [não indígena] não fica em Pacaraima. Eles seguem para Boa Vista ou Manaus”. O tempo que eles poderão permanecer no local ainda é incerto.

Financeiramente o local está sendo mantido com recurso das ONG’s, como a Fraternidade, que já auxilia na administração dos dois abrigos para imigrantes em Boa Vista. Um plano que trata sobre recurso para alimentação e infraestrutura foi enviado para o Governo Federal. “Devemos ter uma resposta em mais de 60 dias”, disse o prefeito.

O irmão Imer, responsável pela Fraternidade em Pacaraima, explicou que a constante demanda por abrigo é um dos desafios que será preciso enfrentar e que ainda não se sabe o que fazer caso o abrigo atinja o limite de imigrantes.

“Hoje chegaram duas famílias com nove pessoas. Provavelmente amanhã cheguem mais, ou depois de amanhã. A situação continua. Isso é um desafio que temos que analisar porque sempre vamos precisar de mais”.

Nos moldes do que já é desenvolvido no abrigo em Boa Vista, a ONG trabalha para integrar o indígenas.

“Estamos tentando descobrir os dons e capacidades deles [indígenas] para desenvolver. Queremos estimular esse conhecimento com projetos de educação, artesanato para que eles consigam uma renda. Aqui tem que ser um lugar transitório e não definitivo”.

Alto comissariado da ONU visita abrigo

Durante a inauguração oficial do abrigo nesta terça, o chefe de Operações Globais da Acnur, George Okoth Obbo, esteve no local e avaliou a situação dos imigrantes no Brasil.

Após visitar a fronteira com a Colômbia e Trindade e Tobago, países que estão recebendo ainda mais venezuelanos que o Brasil, o chefe de Operações da Acnur afirmou que alguns pontos precisam ser tratados com mais urgência.

“Nesses países, os venezuelanos estão sendo recebidos pelo governo e pela sociedade com solidariedade e suporte. Existem muitos desafios para serem analisados, como por exemplo abrigos, comida e saúde. Dois dos mais importantes são educação para as crianças e proteção particularmente para mulheres”, disse.

Após concluir as visitas no Brasil, George explicou que a Acnur deve traçar novas metas de ação. “Estamos avaliando com nossos times, com parceiros e com o governo como podemos tratar desses problemas juntos e de forma mais eficaz”.

Outros abrigos

O abrigo em Pacaraima é o terceiro inaugurado em Roraima. Em dezembro de 2016, um ginásio no bairro Pintolândia, zona Oeste de Boa Vista, foi transformado em moradia improvisada para os imigrantes. No último mês, outro ginásio, dessa vez no bairro Tancredo Neves, também na zona Oeste da capital, foi convertido em abrigo.

No Pintolândia, segundo a Defesa Civil de Roraima, são recebidos indígenas venezuelanos das etnias Warao, Pemon e Panare. A capacidade do local é para 540 pessoas, mas atualmente vivem 443 imigrantes.

Já o segundo abrigo de Boa Vista, inaugurado no dia 28 de outubro, é destinado para os não indígenas. O local pode receber até 450 pessoas. Atualmente 404 venezuelanos vivem no local.

Venezuelanos em Roraima

O número de solicitações de refúgio de venezuelanos em Roraima chegou a marca dos 12.193 pedidos de janeiro a setembro de 2017. Com o aumento da crise econômica e política no país vizinho, este ano a procura já é quase cinco vezes maior que a soma de todos os pedidos feitos de 2014 a 2016.

Por outro lado, o governo do estado estima que 30 mil venezuelanos tenham entrado em Roraima desde 2016. A imigração cresce conforme a crise na Venezuela se alastra nos setores de emprego, alimentos e remédios.

Conforme dados divulgados pela Polícia Federal em Roraima, a maioria dos venezuelanos que migram para o estado são de Caracas, capital do país. Mais de 58% são homens e jovens entre 22 e 25 anos. A maior parte deles são estudantes (17,93%), seguidos por economistas (7,83%), engenheiros (6,21%) e médicos (4,83%).

Nas filas para entrar no Brasil, por meio do município de Pacaraima, os imigrantes relatam que deixam o país vizinho devido a fome e ao desemprego. Muitos deles sonham em recomeçar a vida no Brasil.

Nas ruas de Boa Vista muitos deles estão em busca de trabalho. Nos últimos sete meses o Ministério do Trabalho no estado (MTE-RR) registrou um recorde na emissão de carteiras de trabalho a imigrantes venezuelanos. Nesse período foram quase 3 mil carteiras entregues a cidadãos venezuelanos. Em 2015 foram emitidos apenas 257 documentos, já em 2016 esse número saltou para 1.331.

Fonte: G1