‘São minhas companheiras e filhas’. É assim que a costureira Francisca dos Santos Dantas, de 70 anos, considera as bonecas que pega do lixo para consertar e aumentar sua coleção. A idosa tem um total de mais de 100 brinquedos, entre bonecas e ursos. A coleção possui modelos grandes, pequenos, médios, mas todos bem conversados e guardados com muito amor e carinho.

“Toda vida gostei de boneca, desde a minha infância, mas me criei no seringal e não tive a oportunidade [de ter uma boneca] e minha mãe fazia aquelas bruxinhas de pano para mim. Não gostava da bruxinha, achava feia. Quando fiquei adulta e vim na cidade pela primeira vez, tinha 27 anos, comprei uma para mim”, relembrou.

Francisca ainda guarda a primeira boneca comprada por ela. Ela deu o nome de Bolivianinha para o brinquedo, que tem 34 anos. A coleção da idosa começou por essa boneca, depois ela passou a guardar as que a filha abandonava, mas foi apenas há oito anos que ela passou a consertar os brinquedos encontrados no lixo.

“Às vezes eu acho, mas têm umas duas pessoas que catam lixo que trazem para mim. Pedi para elas [catadoras] trazerem para mim. Trazem de mês em mês, de três a quatro por mês. Moradores também vêm doar. Chegam riscadas de caneta, mas descobrimos um produto que a gente passa e coloca no sol e tira. Outras vêm rasgada, sem a barriga, outras só a cabeça e compro o corpo. Dou banho com desinfetante”, revelou.

Reconstrução

Em quase todos os cômodos da casa de Francisca é possível encontrar uma boneca ou um urso que ela consertou. Após retirar a sujeira deixada pelo abandono das latas de lixo, a idosa prepara um look e enfeites para o brinquedo.

“As roupas sou que faço. Também faço o aniversário delas. No começo eram poucas, mas agora já tem uma família inteira. Não vendi e nem doei nenhuma, tenho amor por elas”, afirmou.

As bonecas ficam guardadas em sacos dentro do quarto de Francisca. Ela diz que nunca vendeu nenhuma das ‘companheiras’, mas que deve arranjar um jeito para abrir mais espaço quando a casa não tiver mais para os brinquedos.

“Ele trabalhava quando estava fazendo o Manoel Julião [bairro de Rio Branco] e tínhamos um lanche e ele vinha comer todo dia. Gostava de brincar e disse que estava voltando para o Ceará, mas que gostava muito do meu jeito e queria deixar uma lembrança para mim. Tinha visto essa boneca na Galeria Meta, na época custava 700 cruzeiros, mas não tinha condições de comprar. Falei para ele da boneca, mas que era muito cara. No outro dia ele trouxe a boneca”, destacou.

Companheiras

Francisca revelou também que os filhos nunca se incomodaram com as bonecas quando moravam com ela. Dos três filhos uma é mulher, que deixou as bonecas dela para a mãe cuidar quando ficou adulta. A coleção inclui ainda doações das filhas de vizinhos.

“Costuro de dia e a noite, enquanto assisto a novela, cuido delas. Me sinto alegre e feliz porque a bichinha vem do lixo, ninguém deu valor, e quando chega aqui levo para o banho, deixo perfeita. Acho que minha casa fica alegre. Entro na casa e sinto que está alegre, cheia de coisas para eu olhar eu moro só”, confirmou.

“As que forem [bonecas] repetidas vou começar a vender. Tem muita gente que faz encomenda caso eu queira vender. Vou vender se ficar sem espaço para elas”, complementou.

Francisca já chegou a fazer aniversário para as bonecas. A festa, feita há quatro anos, ocorreu com ajuda da filha, que na época morava com ela e uma amiga. Como convidados a costureira chamou as crianças da rua e as bonecas delas.

R$ 1 mil em boneca que parece bebê

Francisca demonstra muito carinho e zelo pelas bonecas. Mas, entre todas, há sempre alguma mais especiais que outras. Uma delas é a Rosa Linda, uma boneca Reborn que parece um bebê de verdade, na qual Francisca pagou R$ 1 mil por ela. A boneca foi comprada de uma mulher em Pernambuco, há quatro anos.

“Vi passar na televisão a propaganda da boneca. Quando cheguei em Pernambuco, sai com uma mulher que andava com a gente, cheguei em um shopping e tinha um bebê desse de manequim. Perguntei onde encontrava a boneca e ela disse que era em um shopping no Centro da cidade, que uma mulher fazia. No outro dia fomos e encontramos. Tinha o número da mulher, ligamos e ela marcou o dia para a gente buscar na casa dela. Ela tinha cinco modelos e eu gostei mais dessa”, disse.

A outra boneca que a idosa guarda com um carinho especial é uma dada por um amigo. Ela diz que tinha visto a boneca exposta em uma galeria, mas o valor era muito alto e não tinha como comprar. Francisco relembrou como ganhou o presente do amigo.

Fonte: G1